Viagem pelas ruas da amargura

"As viagens devem ser um instrumento à procura do fantástico,nunca o suporte de uma devoção complacente" - Baptista-Bastos

sexta-feira, abril 15, 2005

A verdadeira história de Lânguida, Lascívia e Luxúria

Lânguida, Lascívia e Luxúria chegaram a casa vindas da festa dessa noite cansadas, febris e esbeltas como nunca. Lânguida mergulhou directamente no sofá da sala e espreguiçou-se com um prazer sonoro. Lascívia, agitada, soltou as amarras do coração e sonhava com uma madrugada de amor até à exaustão. Luxúria correu para o espelho do guarda-fatos e mirou e remirou com prazer a imagem de Cinderela.

A ronronar pela satisfação da inércia, Lânguida bebeu lentamente o vinho verde branco que Lascívia lhe oferecera num copo gelado, levantou a custo as pestanas para a televisão desligada e agradeceu, em silêncio, a música delicodoce que Luxúria colocara no ar.

Agitada sem nervosismo, Lascívia sentia-se bela e trocou o vestido da noite por uma camisa de dormir resplandecente e sensual, mas manteve calçadas as botas que lhe cobriam os joelhos quase até à delicada barra rendada onde morriam as meias de cetim brilhante, oferta de um antigo amante das mil e uma noites.

Obviamente feliz, Luxúria soltou um gemido de prazer e acendeu a luz do candeeiro do quarto, regressou ao espelho e sorriu, sorriu tanto que decidiu, por puro prazer, retocar a cuidadosa maquilhagem feita expressamente para a festa dessa noite.

Duas horas depois, Lânguida, Lascívia e Luxúria continuavam nestes preparos. Lânguida saboreava com conforto o seu vinho, Lascívia apurava diferentes combinações para a sua roupa íntima e Luxúria aprimorava o seu belo corpo.

Três dias e três noites mais tarde, Lânguida continuava plácida no seu posto. "Estão tolas", pensou. Lascívia insistia numas meias brancas de renda, que se ajustavam na perfeição ao castanho avermelhado dos lábios. "Agora sim, estou uma mulher sensual", disse para si. Luxúria, finalmente, acertou nos cuidados que apurava há anos. "Sinto-me bela", falou com o espelho.

Nesse instante a campaínha tocou. Lânguida deixou-se estar, Lascívia correu a compor-se e Luxúria caminhou determinada para a porta. "Quem será?", perguntaram as três. Uma figura humana, com tanto de atraente como de repelente, dado o seu tom de pele levemente esverdeado, indagava pelas amigas do príncipe encantado!

Luxúria convidou o homem a entrar e o conhecido do príncipe encantado avançou. "Nunca em toda a minha vida tinha visto uma mulher tão bela, os meus sinceros parabéns", soltou com um olhar de espanto. Luxúria emudeceu daquela vez sem exemplo e Lascívia entrou, finalmente, na sala. "Boa noite, meu caro senhor, que o traz por cá", perguntou enquanto simulava um subtil desafio de ancas. As articulações do queixo pendiam para sul e o homem viu-se impedido de dizer fosse o que fosse. O embargo não o impediu, no entanto, de desviar o olhar para o sofá, onde Lânguida seguia os seus movimentos com atenção.

"Fui incumbido da delicada missão de encontrar as amigas do príncipe encantado. Sois, por acaso, vós?".

Lânguida nem se moveu, Lascívia procurou resposta apropriada e Luxúria recuperou a voz. "Claro que somos nós", avançaram em coro, "estávamos precisamente à espera do príncipe".
O homem suspirou profundamente e pediu às três amigas que se sentassem, que tinha uma importante comunicação a fazer-lhes. Lado a lado, Lânguida, Lascívia e Luxúria entreolharam-se.

"O príncipe encantado sou eu, Leonardo de baptismo", começou o homem. "Procurei anos a fio a minha princesa, andei por este horizonte, aqui e de além mar, mas, agora, perante tão majestosa visão, confesso-me impotente para tomar uma decisão lógica, como mandam anos e séculos de história. Por isso, proponho casar-me com as três e das três farei donas e rainhas do meu reino. Que dizem?"

Luxúria aplaudiu, Lascívia mordiscou com um sorriso os lábios e Lânguida ergueu-se. "Eu aceito". "Que festa vai ser". "Estou encantada".

Saíram a trote para o castelo do príncipe Leonardo no dorso de um lindo unicórnio branco. Ah!, e foram felizes para sempre.

1 Comentários:

Às 3:33 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

Gostei de tudo, mas gostava mais de acreditar no "e foram felizes para sempre".

 

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